O embarque de avião é o pior projeto logístico já aprovado por seres humanos
Um relatório técnico sobre filas, grupos, malas de mão e a impossibilidade de sentar.
Por Arthur Bastos · Publicado em · 2 min de leitura
Vamos aos dados.
Um avião de corredor único tem, digamos, trinta fileiras e seis assentos por fileira. Um corredor. Uma porta. Cento e oitenta pessoas, cada uma carregando uma mala que foi projetada para caber "na maioria das companhias" — o que, em engenharia, significa "em nenhuma".
O processo atual consiste em pegar essas cento e oitenta pessoas e empurrá-las pelo mesmo tubo, na mesma direção, ao mesmo tempo. Em qualquer fábrica isso teria um nome: gargalo. No aeroporto, chama-se "embarque prioritário".
Primeiro: o projeto atual
O sistema mais comum divide os passageiros em grupos. Os grupos são chamados por um alto-falante cuja inteligibilidade, pela minha medição informal, fica abaixo de 40%. Os grupos são formados não por lógica de ocupação, mas por categoria de cartão de crédito.
O Nico, que estava comigo na última viagem, resumiu melhor do que eu: "Eles chamam a gente pela renda e não pela fileira".
Segundo: a falha estrutural
O problema não é a quantidade de gente. É o ponto único de falha: o passageiro parado no corredor guardando a mala. Enquanto ele luta com o bagageiro, todos atrás dele param. Se ele está na fileira 4 e quem vem atrás está na 28, o passageiro da 28 espera por um problema que não é dele.
Agrave-se com o fenômeno da mala migratória: como o bagageiro acima do seu assento já está cheio, você guarda a mala na fileira 6 e senta na 22. Na saída, você nada contra a corrente. É um sistema que falha na entrada e na saída. Raro. Quase admirável.
Terceiro: o redesenho
O redesenho não é invenção minha. Estudos e simulações acadêmicas — o mais citado é o do astrofísico Jason Steffen, em 2008 — sugerem que embarcar de forma intercalada, de modo que vários passageiros guardem as malas ao mesmo tempo em trechos diferentes do corredor, é mais rápido do que embarcar por blocos de trás para frente.
A versão simplificada, que até o Nico consegue seguir:
- Assentos da janela primeiro, depois os do meio, depois os do corredor.
- Dentro de cada etapa, fileiras alternadas, para que ninguém fique colado em ninguém no corredor.
- Mala de mão acima do próprio assento. Sem exceção. Sem "só ali rapidinho".
Quarto: por que nunca vai acontecer
Porque a ordem de embarque é um produto. Pessoas pagam para entrar primeiro, para sentar mais cedo dentro de um tubo onde ficarão sentadas por três horas. É a única fila do mundo em que se paga para esperar mais.
Registrei na caderneta: não conformidade grau cinco. O Nico pediu para anotar também que o amendoim não vem mais. Anotei. Grau dois.
Perguntas frequentes
Existe mesmo um jeito mais rápido de embarcar?
Estudos e simulações acadêmicas, como os do astrofísico Jason Steffen publicados em 2008, indicam que métodos que evitam vários passageiros bloqueando o mesmo trecho do corredor tendem a ser mais rápidos que o embarque por grupos de trás para frente.
Por que as companhias não adotam o método ideal?
Porque a ordem de embarque também é um produto: prioridades pagas, programas de fidelidade e famílias com crianças embaralham qualquer sequência teórica.
Sobre o autor
Passou 37 anos reprovando peças numa fábrica de autopeças e agora reprova o resto do mundo. Carrega uma caderneta de não conformidades e acredita que tudo tem uma especificação; o problema é que ninguém lê.
Personagem fictício do universo Os Saco Cheio.
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