Pular para o conteúdo
OS SACO CHEIONada está bom.
O Gabarito Errado

O embarque de avião é o pior projeto logístico já aprovado por seres humanos

Um relatório técnico sobre filas, grupos, malas de mão e a impossibilidade de sentar.

Por Arthur Bastos · Publicado em · 2 min de leitura

EMBARQUE: ZEROREPROVADONC-3481 · 2/5

Vamos aos dados.

Um avião de corredor único tem, digamos, trinta fileiras e seis assentos por fileira. Um corredor. Uma porta. Cento e oitenta pessoas, cada uma carregando uma mala que foi projetada para caber "na maioria das companhias" — o que, em engenharia, significa "em nenhuma".

O processo atual consiste em pegar essas cento e oitenta pessoas e empurrá-las pelo mesmo tubo, na mesma direção, ao mesmo tempo. Em qualquer fábrica isso teria um nome: gargalo. No aeroporto, chama-se "embarque prioritário".

Primeiro: o projeto atual

O sistema mais comum divide os passageiros em grupos. Os grupos são chamados por um alto-falante cuja inteligibilidade, pela minha medição informal, fica abaixo de 40%. Os grupos são formados não por lógica de ocupação, mas por categoria de cartão de crédito.

O Nico, que estava comigo na última viagem, resumiu melhor do que eu: "Eles chamam a gente pela renda e não pela fileira".

Segundo: a falha estrutural

O problema não é a quantidade de gente. É o ponto único de falha: o passageiro parado no corredor guardando a mala. Enquanto ele luta com o bagageiro, todos atrás dele param. Se ele está na fileira 4 e quem vem atrás está na 28, o passageiro da 28 espera por um problema que não é dele.

Agrave-se com o fenômeno da mala migratória: como o bagageiro acima do seu assento já está cheio, você guarda a mala na fileira 6 e senta na 22. Na saída, você nada contra a corrente. É um sistema que falha na entrada e na saída. Raro. Quase admirável.

Terceiro: o redesenho

O redesenho não é invenção minha. Estudos e simulações acadêmicas — o mais citado é o do astrofísico Jason Steffen, em 2008 — sugerem que embarcar de forma intercalada, de modo que vários passageiros guardem as malas ao mesmo tempo em trechos diferentes do corredor, é mais rápido do que embarcar por blocos de trás para frente.

A versão simplificada, que até o Nico consegue seguir:

  1. Assentos da janela primeiro, depois os do meio, depois os do corredor.
  2. Dentro de cada etapa, fileiras alternadas, para que ninguém fique colado em ninguém no corredor.
  3. Mala de mão acima do próprio assento. Sem exceção. Sem "só ali rapidinho".

Quarto: por que nunca vai acontecer

Porque a ordem de embarque é um produto. Pessoas pagam para entrar primeiro, para sentar mais cedo dentro de um tubo onde ficarão sentadas por três horas. É a única fila do mundo em que se paga para esperar mais.

Registrei na caderneta: não conformidade grau cinco. O Nico pediu para anotar também que o amendoim não vem mais. Anotei. Grau dois.

Perguntas frequentes

Existe mesmo um jeito mais rápido de embarcar?

Estudos e simulações acadêmicas, como os do astrofísico Jason Steffen publicados em 2008, indicam que métodos que evitam vários passageiros bloqueando o mesmo trecho do corredor tendem a ser mais rápidos que o embarque por grupos de trás para frente.

Por que as companhias não adotam o método ideal?

Porque a ordem de embarque também é um produto: prioridades pagas, programas de fidelidade e famílias com crianças embaralham qualquer sequência teórica.

Sobre o autor

Arthur Bastos

Passou 37 anos reprovando peças numa fábrica de autopeças e agora reprova o resto do mundo. Carrega uma caderneta de não conformidades e acredita que tudo tem uma especificação; o problema é que ninguém lê.

Personagem fictício do universo Os Saco Cheio.

Outras não conformidades

Cartas à Gerência

Carta à gerência da tampa do iogurte

Prezada gerência: a tampa do iogurte rasgou em três partes, nenhuma delas útil, e eu terminei comendo o produto com a ponta do dedo. Segue reclamação formal.

Arthur Bastos ·