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OS SACO CHEIONada está bom.
Cartas à Gerência

Carta à gerência da tampa do iogurte

Reclamação formal, protocolada em duas vias, sobre uma embalagem que exige força, técnica e fé.

Por Arthur Bastos · Publicado em · 2 min de leitura

PREZADAGERÊNCIAREPROVADONC-9552 · 3/5

À gerência responsável pela tampa do iogurte,

Escrevo para registrar formalmente uma não conformidade observada no último dia 19, às 7h42, na cozinha de minha residência.

Descrição da ocorrência

Ao tentar abrir um pote de iogurte natural, localizei a aba de abertura. Por "aba", entenda-se uma saliência de aproximadamente dois milímetros, projetada, pelo que pude deduzir, para ser segurada por uma formiga.

Puxei com o polegar e o indicador. A tampa rasgou. Não de forma limpa: rasgou em três partes, nenhuma delas destacável, todas firmemente coladas à borda. Uma delas, a maior, permaneceu sobre o iogurte como uma lona sobre um telhado em obra.

Tentativas de mitigação

  1. Tentei uma faca. A faca furou a tampa e espirrou iogurte na minha camisa, que estava passada.
  2. Tentei uma colher. A colher empurrou a tampa para dentro do iogurte.
  3. Chamei o Nico. O Nico chegou, olhou o pote, disse "isso aí não abre, Arthur, isso é decorativo", abriu com os dentes e comeu metade.

Análise da falha

O problema não é o iogurte. O iogurte está dentro da especificação. O problema é que alguém aprovou uma embalagem testando-a com mãos de 25 anos, em laboratório, com o pote parado na mesa e a luz certa. Ninguém testou às 7h42, com sono, com as mãos de um senhor de 64 anos e um café esfriando ao lado.

Em controle de qualidade, chamamos isso de teste fora das condições de uso. É o equivalente a aprovar um guarda-chuva num dia de sol.

Solicitação

Solicito, respeitosamente, que a próxima versão da tampa seja testada por alguém que já tenha aberto um pote sem querer. Fico à disposição para participar do teste. Levo minha própria camisa reserva.

Atenciosamente,

Arthur Bastos Inspetor de qualidade (aposentado, mas não em espírito)

P.S. do Nico: o iogurte estava bom.

Sobre o autor

Arthur Bastos

Passou 37 anos reprovando peças numa fábrica de autopeças e agora reprova o resto do mundo. Carrega uma caderneta de não conformidades e acredita que tudo tem uma especificação; o problema é que ninguém lê.

Personagem fictício do universo Os Saco Cheio.

Outras não conformidades